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domingo, 26 de maio de 2013

Batismo e Entrada no Reino



Rev. Ronald Hanko


Uma passagem freqüentemente usada por aqueles que praticam o batismo infantil como prova do que crêem é Marcos 10:13-16, que descreve Jesus abençoando os pequeninos. Aqueles que sustentam o assim chamado “batismo dos crentes” consideram o uso dessa passagem embaraçosa, visto que não fala de batismo de forma alguma.

Todavia, Marcos 10 é um texto prova que pode ser usado para apoiar o batismo infantil. Isso é verdade por várias razões, mas devemos observar desde o início que essas crianças eram de fato infantes (Lucas 18:15, KJV).2

Primeiro, os infantes nessa passagem foram recebidos por Jesus, que também as tomou em seus braços e as abençoou. Ser recebido nos braços de Jesus e abençoado é nada menos que a própria salvação. Que esses infantes foram salvos por Jesus é evidente a partir dos versículos 14 e 15, onde ele fala deles recebendo o reino.

Dessa salvação e recepção do reino, o batismo é uma figura ou sinal, que nos mostra como entramos no reino. O argumento, então, é esse: Se esses infantes podem receber a realidade para a qual o batismo aponta, por que não podem receber o sinal? Colocando de forma diferente: Se eles podem receber a coisa maior, por que não a menor? Cremos que, visto que podem e recebem a realidade, eles devem também receber o sinal. A salvação é prometida a eles, bem como aos adultos no pacto da graça.

Segundo, Jesus nos diz no versículo 15 que ninguém recebe o reino, exceto na forma que um infante o recebe, isto é, passivamente, sem conhecimento e pelo poder da graça somente. Receber o reino como um pequenino, portanto, é recebê-lo sem obras – sem qualquer esforço da nossa parte. Essa é a única forma que um infante pode receber o reino.

Na verdade, essa é a única forma que qualquer um pode receber o reino. Inicialmente, quando a salvação chega, não estamos procurando nem a desejando. Estamos, afinal, mortos em delitos e pecados, e é somente quando Deus graciosamente nos dá a salvação e o reino, ao nos regenerar, que também começamos a buscar e conhecer o que ele fez. Portanto, Jesus nos diz que há somente uma forma de receber o reino – como uma criança pequena. Se não o recebemos dessa forma, não recebemos de forma alguma.

Nisto reside outra razão para batizar os infantes. Não dizemos que cada infante batizado está necessariamente salvo, mas vemos no batismo de cada infante uma figura de como a salvação é possível para um infante segundo a promessa do pacto de Deus, a saber, pelo poder da graça soberana.

De fato, em cada infante batizado temos uma figura de como qualquer e cada um de nós foi salvo – não por nossa disposição ou esforço, mas pelo poder onipotente da graça soberana, que nos chegou quando não estávamos pedindo ou procurando. Deus nos dá nova vida e nascimento.

O propósito, então, do batismo infantil é mostrar como somos salvos: não provar a salvação do infante que é batizado (o batismo com água nunca pode fazer isso). O batismo mostra o único caminho da salvação e nos lembra que Deus promete salvar os filhos dos crentes pela mesma graça soberana que salvou seus pais. Quão triste o fato de muitos não terem ou verem esse testemunho no batismo de infantes indefesos.



2 Lemos na ARA e ARC simplesmente crianças, mas o termo grego é brephos, que segundo o Léxico Grego de Strong significa: 1) criança não nascida, embrião, feto; 2) criança recém-nascida, infante, bebê. (N. do T.)



Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1
Fonte: Doctrine according to Godliness, Ronald Hanko, Reformed Free Publishing Association, p. 261-62.

sábado, 9 de julho de 2011

JESUS MORREU POR TODOS?


R. C. Sproul




Um dos pontos mais controvertidos da teologia reformada tem a ver com o terceiro item de nossa lista de itens do Capítulo Cinco. É a expiação limitada. Este tem sido um tal problema de doutrina que há multidões de cristãos que dizem que abraçar a maioria das doutrinas do calvinismo, mas saem do barco bem aqui.

Referem-se a si mesmos como os calvinistas dos “quatro pontos“. O ponto que não podem sustentar é a expiação limitada. Freqüentemente tenho pensado que, para ser um calvinista de quatro pontos, é preciso que a pessoa não entenda pelo menos um dos cinco pontos. É difícil imaginar que a pessoa possa entender os outros quatro pontos do calvinismo e negar a expiação limitada. Existe sempre a possibilidade, contudo, da feliz inconsistência pela qual as pessoas sustentam diferentes pontos de vista ao mesmo tempo.

A doutrina da expiação limitada é tão complexa que, para tratá-la adequadamente, seria preciso um volume completo. Nem mesmo dediquei um capítulo inteiro a ela neste volume, porque um capítulo inteiro não lhe faria justiça. Eu pensei em não mencioná-la de todo, porque existe o perigo de que dizer pouco sobre ela seja pior do que não dizer nada. Mas penso que o leitor merece pelo menos um breve resumo da doutrina e assim procederei – com cuidado porque o assunto requer um tratamento mais profundo do que posso conceder aqui.

A questão da expiação limitada tem a ver com a pergunta: “Por quem Cristo morreu? Ele morreu por todos ou somente pelos eleitos?“

Todos concordamos que o valor da expiação de Cristo foi suficientemente grande para cobrir os pecados de todos os seres humanos. Também concordamos que sua expiação é verdadeiramente oferecida a todos os seres humanos. Qualquer pessoa que coloca sua confiança na morte expiatória de Jesus Cristo certamente receberá os completos benefícios dessa propiciação. Estamos também confiantes de que, qualquer que responde à oferta universal do Evangelho será salvo.

A questão é: “Para quem a expiação foi designada?“

Deus mandou Jesus ao mundo meramente para tornar a salvação possível às pessoas? Ou Deus tinha alguma coisa mais definida em mente? (Roger Nicole, o eminente teólogo batista, prefere chamar a expiação limitada de “Expiação Definida”).

Alguns argumentam que tudo o que expiação limitada significa é que os benefícios da expiação são limitados aos crentes que satisfazem as condições necessárias de fé. Isto é, embora a expiação de Cristo fosse suficiente para cobrir os pecados de todos os homens e para satisfazer a justiça de Deus contra todo pecado, ela efetiva a salvação somente para os crentes. A fórmula diz: Suficiente para todos, eficiente somente para os eleitos.

Esse ponto simplesmente serve para nos distinguir dos universalistas, que crêem que a expiação assegurou salvação para todos. A doutrina da expiação limitada vai além disso. Refere-se à questão mais profunda da intenção do Pai e do Filho na cruz. Declara que a missão e morte de Jesus foi restrita a um número limitado – a seu povo, suas ovelhas.

Jesus foi chamado de “Jesus” porque Ele salvaria seu povo de seus pecados (Mt 1.21). O Bom Pastor dá sua vida pelas ovelhas (Jo 10.15). Essas passagens são encontradas freqüentemente no Novo Testamento.

A missão de Cristo era de salvar os eleitos. “E a vontade de quem me enviou é esta: Que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.39).

Não tivesse havido um número fixo de contemplados por Deus quando Ele designou que Cristo morresse, então os efeitos da morte de Cristo teriam sido incertos. E possível que a missão de Cristo tivesse sido uma tristeza e completo fracasso.

A propiciação de Jesus e sua intercessão são obras conjuntas de seu sumo sacerdócio. Ele explicitamente exclui os não eleitos de sua grande oração sumo sacerdotal: “…não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus…” (Jo 17.9). Cristo morreu por aqueles por quem Ele não orou?

A questão essencial aqui diz respeito à natureza da oferta de Jesus. A oferta de Jesus inclui tanto expiação quanto a propiciação. Expiação envolve a remoção que Cristo faz de nossos pecados “para fora” (ex) de nós. Propiciação envolve uma satisfação pelo pecado “perante ou na presença de” (pro) Deus.

O arminianismo tem uma oferta que é limitada em valor. Não cobre o pecado dos incrédulos. Se Jesus morreu por todos os pecados de todos os homens, se Ele expiou todos os nossos pecados e propiciou todos os nossos pecados, então todos seriam salvos. Uma oferta potencial não é uma oferta verdadeira. Jesus realmente fez oferta pelos pecados de suas ovelhas.

O maior problema com a expiação definida ou limitada é encontrado nas passagens que as Escrituras usam referentes à morte de Cristo “por todos” ou pelo “mundo todo”. O mundo por quem Cristo morreu não pode significar a família humana inteira. Deve referir-se à universalidade dos eleitos (povo de todas as tribos e nações), ou à inclusão dos gentios em acréscimo ao mundo dos judeus. Foi um judeu que escreveu que Jesus não morreu meramente por nossos pecados, mas pelos pecados do mundo todo. Será que a palavra nossos refere-se aos crentes ou aos judeus crentes?

Precisamos nos lembrar de que um dos pontos cardeais do Novo Testamento refere-se à inclusão dos gentios no plano da salvação de Deus. A salvação era dos judeus, mas não restrita aos judeus. Onde quer que seja dito que Cristo morreu por todos, algum limite precisa ser acrescentado, ou a conclusão teria de ser o universalismo ou a mera expiação potencial.

A expiação de Cristo foi real. Ela efetivava tudo o que Deus e Cristo pretendiam dela. O desígnio de Deus não foi e não pode ser frustrado pela incredulidade humana. O Deus soberano soberanamente enviou seu Filho para propiciar pelo seu povo.

Nossa eleição é em Cristo. Somos salvos por Ele, nele e para Ele. O motivo para nossa salvação não é meramente o amor que Deus tem por nós. É especialmente baseada no amor que o Pai tem pelo Filho. Deus insiste que seu Filho verá o trabalho de sua alma e ficará satisfeito. Nunca houve a menor possibilidade de que Cristo pudesse ter morrido em vão. Se o homem está verdadeiramente morto no pecado e preso ao pecado, uma mera expiação potencial ou condicional não somente pode ter acabado em fracasso, como muito certamente teria acabado em fracasso.

Os arminianos não têm razão verdadeira para crer que Jesus não morreu em vão. São deixados com um Cristo que tentou salvar a todos, mas na realidade não salvou ninguém.



Em MONERGISMO 

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sequidão


Digão

O ar anda muito seco. Aqui em Rondônia a coisa está virando calamidade. Quando se anda na rua, a garganta seca, mesmo você ficando de boca fechada. Os olhos ardem, a garganta arranha. O clima está nublado há dias, e é por causa da poeira suspensa. De noite, fica uma neblina que te impede de enxergar mais longe. E é neblina de pó, não de orvalho.

A grama das praças ficou marrom. Não sei como estão as plantações e os rebanhos, mas imagino que devam estar sofrendo bastante também. Há notícias de que ocorreram acidentes nas estradas daqui, de Goiás e do Mato Grosso por causa do ar seco, junto com as queimadas.

O ar está pesado, ruim para se respirar. Segundo uma amiga que mora em Brasília, a coisa por lá também não está nada fácil, até mesmo porque o clima lá naturalmente é bastante seco.

Sinto que o clima, o ar, o meio-ambiente eclesiástico também apresenta tamanha sequidão. O nome de Jesus, que até há pouco tempo era central, hoje se tornou apenas mais um amuleto para de amealhar renda. A sagacidade de empresários religiosos que querem se fazer conhecidos como ministros de Deus e a sanha de gente calhorda em busca de notoriedade alcançam níveis alarmantes em nossa história recente. O conchavo, o jeitinho, o “quanto levo nessa”, se tornaram padrão nos bastidores eclesiais brasileiros. Por sua vez, há também aqueles que, alijados da notoriedade ocupada no passado, passam-se por únicos e exclusivos profeta e pregoeiros do Evangelho genuíno, gerando, com isso, um sem-número de seguidores áulicos e faltosos de capacidade de discernimento, que se alimenta de sua bile despejada Brasil afora. Há também aqueles que crêem e pregam que Deus é uma espécie de Carolina da música de Chico Buarque: o tempo passou e só Deus não viu, não agiu, não intercedeu, não exerceu Sua soberania. Como um bobalhão, ficou sentado à beira do caminho lamentando Sua impotência perante este mundo mau.

Enfim, o que há é uma sequidão. Os relacionamentos pessoais estão secos, quebradiços. O caráter de muita gente não suporta ser moldado, pois pode trincar. O relacionamento com Deus, então, resseca as vistas, a garganta, a pele. 

O profeta Ezequiel demonstra, em sua profecia (Ez 37.1-15), o que realmente somos: ossos secos em um vale (Ez 37.11). A visão de ossos remete à imagem da morte, desolação, abandono. Ossos também são parte da estrutura de um corpo. A igreja de hoje está bem estruturada, com seus inúmeros departamentos, autarquias e diretorias internas; falta-lhe, porém, o fôlego de vida, para que termine essa sequidão.

É hora de clamarmos a Deus, pedirmos perdão a Ele, nos arrependermos de nossos maus caminhos. Deixar de usar o rebanho como moeda de troca eleitoreira, ou como vitrine de nossa presunção. É hora de vivermos, novamente, a vida de refrigério que Deus nos dá (Sal 23.3a), sendo guiados por Ele, e não por nossa própria carnalidade. É hora de a igreja evangélica brasileira se converter ao Senhor, e fugir de sua perene sequidão. Que Deus tenha misericórdia de nós!

Digão anda procurando refrigério para esta terrível sequidão

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A questão é POR QUEM e não POR QUÊ




Hermes Fernandes



Já há algum tempo tenho aprendido que antes de buscar respostas, devemos reconsiderar as perguntas.


Geralmente, perguntamos "por quê". Por que fomos traídos? Por que estamos doentes? Por que nos mandaram embora do trabalho? Por que... Por que... Por que...

Tenho ensinado que em vez de "por quê", deveríamos pergunta "pra quê". Em outras palavras, deveríamos nos preocupar mais com os propósitos do que com as razões.

Mas ultimamente tenho refletido sobre outra pergunta igualmente importante. Em vez de "por quê", deveríamos perguntar "por quem".

Deixe-me exemplificar:

Jesus teve que mudar seu trajeto à caminho de Jerusalém. Em vez de um atalho, tomou o caminho mais largo, que passava por Samaria, um lugar inóspito para judeus. Talvez os discípulos perguntassem: Por quê? Mas a pergunta certa era "por quem". E a resposta é: por uma samaritana a qual Jesus queria encontrar.

Filipe, conquanto gozasse do maior sucesso ministerial obtido por um dos seguidores de Jesus até então, foi tirado pelo Espírito de Samaria, e levado para o deserto. Por quê? Não. Por quem? Por um eunuco desejoso de conhecer a Palavra.

Paulo e Silas foram presos e açoitados injustamente em Filipos. O que eles fizeram pra merecer aquilo? Nada. Mas eles estavam ali por alguém. Um carcereiro frustrado e suicida. Aquele carcereiro era o tal "varão macedônio" com o qual Paulo havia sonhado dias antes, rogando para ele passasse à Macedônia.

Se Deus lhe enviou a um lugar, pergunte-O por quem você está ali. Seja atrás das grades de uma prisão, no CTI de um Hospital, numa fila de desempregados. Talvez haja ali uma vida preciosa aos olhos de Deus, com a qual deseja que você se encontre.

Depois de três anos, eu e minha família retornamos aos Estados Unidos. Muitos perguntam a razão pela qual eu me dispus a expor minha família, num momento em que esse país atravessa sua maior crise econômica. Sei, porém, que o que me trouxe aqui não foi nenhum desejo de aventurar-me, ou de fugir de qualquer que seja o problema. Estou aqui por alguém. Por um povo que aprendi a amar. Por gente sedenta e faminta da Palavra.

Todos os propósitos de Deus vão de encontro àqueles que Ele mesmo escolheu desde a fundação do mundo. E para que tais sejam alcançados, vale a pena atravessar oceanos, vales e montanhas, arriscar tudo, inclusive a própria vida.

Pessoas são mais importantes do que paredes, projetos, programas, estratégias, etc. Foi por elas que Jesus deu a vida. E é por elas que devemos viver.


terça-feira, 3 de maio de 2011

O ESPÍRITO CALVINISTA E O ESPÍRITO BRASILEIRO


Por Antônio Carlos Costa

Há algum tempo chegou-me às mãos o livro – A Riqueza e a Pobreza das Nações, escrito por David S. Landes, professor emérito de história e economia política na Universidade de Harvard. Seu propósito ao escrever foi o de tentar responder a difícil e necessária questão: por que algumas nações são ricas e outras são pobres?

Landes, pôde perceber nas suas pesquisas, que há certa uniformidade no comportamento das nações pobres e das nações ricas. Esses destinos diferentes não podem ser atribuídos ao acaso. Existem razões para a riqueza e a pobreza dos povos. Estas explicações têm relação direta com o nível de assimilação por parte dessas mesmas nações de certas leis, que são conducentes ao desenvolvimento de um país. Ao mesmo tempo, leis que se não forem respeitadas, fazem com que países inteiros paguem um tributo social altíssimo.

Sendo assim, convém salientarmos o primeiro ponto: nessa busca por explicações com base na realidade dos fatos, o escritor da renomada universidade, encontrou um comportamento uniforme, conforme já mencionei, tanto nas nações que se tornaram ricas, quanto nas nações que se tornaram pobres. As causas são múltiplas - clima, geografia, papel do estado, educação, abertura intelectual, curiosidade, espírito empreendedor, capacidade de aperfeiçoar as coisas, iniciativa privada, entre outros tantos fatores mais. Entre eles, a religião. É este o ponto que gostaria de enfocar.

Nas suas análises comparativas entre os povos ricos e pobres, Landes encontrou diferenças em termos de prosperidade entre as próprias nações européias. Essas diferenças não fazem parte apenas dos contrastes existentes entre primeiro, segundo e terceiro mundo. Elas existem na Europa. Chamou sua atenção o fato do sul do continente europeu não ter alcançado o mesmo tipo de progresso que foi atingido pelo norte. Como explicar o atraso de Portugal e Espanha (agora minimizado pela inclusão de ambos na União Européia)? Nações que um dia foram as donas dos oceanos. Exploradoras de territórios imensos no mundo todo. Não se curvando a tese de que o clima representa a melhor explicação (já que há diferenças climáticas entre ambas as regiões, o norte mais frio do que o sul) – “Esses estereótipos contêm um grama de verdade e um quilo de pensamento indolente”, Landes acredita que a melhor solução para questão tem relação com a emergência do protestantismo, especialmente o de linha calvinista na Europa setentrional.

O escritor americano começa por mencionar a explicação dada pelo cientista social alemão Max Weber. Ao publicar em 1904-1905 – A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Weber expressou o seguinte ponto de vista, apresentado resumidamente por Landes: “o protestantismo – mais especificamente, suas ramificações calvinistas – promoveu a ascensão do capitalismo, ao definir e sancionar uma ética de comportamento cotidiano que conduzia ao sucesso nos negócios”. Para Landes, o calvinismo produziu um código secular de comportamento: trabalho perseverante, honestidade, seriedade, uso parcimonioso do dinheiro e do tempo (ambos concedidos por Deus) – “Todos esses valores ajudam os negócios e a acumulação de capital, mas Weber sublinhou que o bom calvinista não visa às riquezas... a tese de Weber é que o protestantismo produziu um novo tipo de homem de negócios, um diferente tipo de pessoa, que tinha por objetivo viver e trabalhar de um certo modo. Esse modo é que era importante e a riqueza seria, quando muito, um subproduto”.

Landes menciona como exemplo, as atitudes protestante e católica em relação aos jogos de azar no começo do período moderno: “Ambas o condenaram, mas os católicos condenaram-nos porque uma pessoa poderia perder (perderia) e nenhuma pessoa responsável comprometeria seu bem-estar e o de outros dessa maneira. Os protestantes, por outro lado, condenaram os jogos porque uma pessoa poderia ganhar, e isso seria ruim para o seu caráter”. Ele traz a memória de todos, o ponto de vista sobre a ética puritana do historiador social inglês R. H. Tawney no seu livro – Religião e Ascensão do Capitalismo: “Esta protegeu os comerciantes e fabricantes contra as pedras e flechas de desprezo das classes altas e seus códigos de bom-tom. Deu-lhes um sentimento de dignidade e virtude, um escudo num mundo de preconceitos anticomerciais. E assim, não cedendo a tentação do ócio aristocrático, os bons calvinistas mantiveram-se fiéis à sua tarefa de geração para geração, acumulando riqueza e experiência pelo caminho”.

Já o sociólogo Robert K. Merton, argumentou a favor da existência de um vínculo direto entre o protestantismo e o nascimento da ciência moderna. Landes lembra que não foi Merton o primeiro a defender essa tese – “No século XIX, Alphonse de Candolle, de uma família huguenote de Genebra, procedeu a um levantamento segundo o qual dos 92 membros estrangeiros eleitos para a Academia de Ciências francesa no período de 1666-1866, 71 eram protestantes, 16 católicos e os cinco restantes judeus ou de filiação religiosa indeterminada – isto numa população de 107 milhões de católicos e 68 milhões de protestantes fora da França. Uma contagem semelhante de membros estrangeiros da Royal Society de Londres em 1829 e 1869 mostrou igual número de católicos e protestantes num conjunto em que os católicos superavam numericamente os protestantes em mais de três para um”.

Para os que julgam as teses de Weber implausíveis ou inaceitáveis, Landes apela para os dados empíricos sacados da história: “... a documentação nos mostra que mercadores e fabricantes protestantes desempenharam um papel destacado no comércio, nos negócios bancários e na manufatura. Nos centros fabris (fabriques) da França e da Alemanha Ocidental, os protestantes eram tipicamente os empregadores, e os católicos os empregados. Na Suíça, os cantões protestantes eram os centros da indústria manufatureira de exportação (relógios, maquinaria, têxteis); os católicos eram primordialmente agrícolas. Na Inglaterra, que em fins do século XVI era preponderantemente protestante, os dissidentes (leia-se calvinistas) eram ativos e influentes, de um modo desproporcional, nas industrias fabris e nas forjas da nascente Revolução Industrial”.

Landes não se contenta apenas com a apresentação das provas empíricas. Ele parte para o nível teórico também: “A questão essencial consiste, com efeito, na criação de um novo tipo de homem – racional, metódico, diligente, produtivo. Essas virtudes, embora nada tivessem de novas, tampouco se podia dizer que fossem moeda corrente. O protestantismo generalizou-as entre os seus adeptos, que julgavam uns aos outros pela conformidade a esses padrões... características especiais dos protestantes refletem e conformam essa ligação... a ênfase sobre a instrução e a cultura, tanto para moças quanto para rapazes. Isso era um subproduto da leitura da Bíblia. Esperava-se que os bons protestantes lessem a Sagrada Escritura para si mesmos. (À guisa de contraste, os católicos foram catequizados mas não tinham que ler, e eram explicitamente desencorajados a ler a Bíblia.) O resultado: maior número de pessoas instruídas e um maior pool de candidatos para a escolaridade de níveis superiores; também maior garantia de continuidade de instrução de geração para geração. Mães instruídas fazem a diferença”.

Foi impossível continuar a leitura do livro sem parar para pensar no Brasil. E temos que admitir – parar para pensar sobre o Brasil é parar para pensar sobre a história de um dos maiores desperdícios que a humanidade já viu. Desperdício de terra, beleza natural, circunstâncias históricas favoráveis e patrimônio humano. Sim, o Brasil é um desperdício. Desperdício de terra. Poluímos nossos rios, sujamos nossas praias, devastamos nossas florestas. Desperdício de beleza natural. Parte do que era belo se tornou feio ao ter contato com o povo brasileiro. Nossas cidades não estão à altura da formosura da natureza que nos cerca. São cidades sujas, sem graça, mal planejadas e cercadas de favelas. Desperdício de circunstâncias históricas favoráveis. Não passamos por nenhuma tragédia natural, nossa nação jamais soube o que significa ter que se erguer da devastação de uma guerra, nossos campos jamais se recusaram dar-nos o pão. Encontramos, contudo, pessoas vivendo na miséria no Brasil. A nação onde mais se mata, onde pune-se menos. A primeira em defasagem social. Não há país com tamanho fosso entre ricos e pobres. Desperdício de patrimônio humano. Somos milhões. Resultado de uma história da miscigenação racial das mais lindas da trajetória humana. Alemães, italianos, japoneses, portugueses, árabes, índios, africanos, poloneses, todos morando num mesmo país, falando uma mesma língua, casando uns com os outros e trazendo para nosso país toda sua riqueza genética e cultural. Mas, percebe-se que no contato com a nossa terra as coisas parecem se atrofiar. São milhões de brasileiros que recusam-se a estudar. Uma perda irreparável de neurônios. Domesticados por uma cultura que ensina a mentir, a ser impontual, a deixar para amanhã o que deve ser feito hoje, a trabalhar de modo desleixado, entre tantas mazelas mais que envergonham, ou deveriam envergonhar a todos nós.

Jogamos a culpa na genética (como se fôssemos uma sub-raça), na globalização (como se ela fosse responsável pelo desabamento do metrô de São Paulo e da marquise de um hotel em Copacabana), nos países desenvolvidos (quando vemos a Coréia do Sul e o Chile não precisando se fazer valer dessa espécie de racionalização), na colonização (como se os portugueses tivessem deixado de conduzir os rumos do país no mês passado), em karma (crença infeliz, que nos leva a dizer que nessa vida pagamos pelos erros praticados numa vida da qual não nos lembramos). Em suma, nos recusamos a encarar nossas deformidades. Julgamo-nos o povo gente boa, apesar de sermos os campeões mundiais em assassinato e disparidade social.

Não há como deixar de pensar na igreja. Os evangélicos. Povo ao qual pertenço e que Deus usou para levar-me a Cristo. Por que a igreja evangélica brasileira tem se demonstrado incapaz de salvar o brasileiro do Brasil? Qual a razão de vermos em nossas igrejas pessoas mais brasileiras do que cristãs? Onde estão os resultados históricos que costumam fazer parte da passagem do protestantismo por uma nação?

Quero dizer que tenho esperança. Eu não estou aqui para reclamar da vida. Não suporto a crítica que não vem acompanhada de resposta. Não é da essência da fé cristã fazer apresentação de problemas sem apresentar esperança. Minha esperança consiste no sonho de um dia ver o calvinismo - "o cristianismo que se achou" - entrar no sangue do povo evangélico brasileiro. Nesse dia a igreja haverá de ser salva do Brasil e o Brasil salvo de si mesmo.




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Antônio Carlos Costa é pastor da Igreja Presbiteriana da Barra, Presidente do Rio de Paz e há dez anos apresenta o programa de televisão Palavra Plena.

terça-feira, 29 de março de 2011

O Último Discurso de um Profeta Verdadeiro!


Sérgio Giogini

O vídeo a seguir é parte da última ministração realizada pelo Reverendo Martin Luther King. Como em todas as outras ele falava com a inspiração, a paixão e a poesia dos profetas ancestrais, com a certeza de que a justiça pode e certamente prevalecerá.




"... Reverendo Ralph Jackson, Sr. Billy Kiles; eu poderia prosseguir com esta lista, porém nosso tempo é curto. Mas desejo agradecer a todos. E desejo que vocês (plateia) também agradeçam, porque muito frequentemente os pastores não se preocupam com mais nada a não ser consigo mesmos. E fico contente em ver um ministro valoroso.

É justo falar sobre grandes mantos brancos em algum lugar, com todo o seu simbolismo; mas, em última estância, as pessoas aqui (na terra) querem alguns ternos, vestidos e sapatos. Tudo bem se falarmos sobre ruas cobertas de leite e mel, mas Deus nos ordenou (como sacerdotes) para nos preocuparmos com os miseráveis e seus filhos, que não podem comer três refeições por dia. Tudo bem se falarmos sobre a nova Jerusalém, mas um dia os pregadores de Deus terão de falar sobre a nova Nova York, sobre a nova Atlanta, sobre a nova Filadélfia, sobre a nova Los Angeles, sobre a nova Memphis, no Tennessee. Eis o que precisamos fazer...
Não precisamos discutir com ninguém. Não precisamos praguejar e sair por ai agredindo as pessoas com as nossas palavras. Não precisamos de pedras ou garrafas. Precisamos simplesmente circular por ai (...) e dizer: Deus nos enviou aqui para lhes dizer que vocês não tratam bem os Seus filhos. E viemos aqui lhe pedir que o primeiro item de sua agenda seja o tratamento justo dos filhos de Deus.
Bem não sei o que acontecerá agora. Dias difíceis virão. Mas não me importo. Pois eu estive no topo da montanha. E não me importo. Como qualquer pessoa, gostaria de viver uma vida longa. A longevidade tem seu lugar. Mas não me preocupo com isso agora. Apenas desejo obedecer os designos de Deus. E Ele me levou ao topo da montanha, olhei ao redor e contemplei a Terra Prometida. Posso não alcança-la, mas quero que saibam, que nós, como povo (de Deus), chegaremos à Terra Prometida. Estou tão feliz. Não me preocupo com nada; não temo homem algum. Meus olhos viram a Glória da Presença do Senhor."
Reverendo Martim Luther King
3 de Abril de 1968, Templo Mason, Memphis, Tennessee. Pouca horas antes de ser assassinado.


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Fonte: Blog do Sérgio Giorgini Junior

domingo, 31 de outubro de 2010

A POLKA DA REFORMA

Um vídeo bacana em cartoon animado - legendas em inglês - sobre a participação de Lutero na Reforma Protestante.





domingo, 24 de outubro de 2010

A NECESSIDADE DA REGENERAÇÃO JAZ EM NOSSA DEGENERAÇÃO NA­TURAL.

ArthurW.Pink

Há dois principais obstáculos no caminho da salvação de qualquer dos descendentes caídos de Adão: a escravidão à culpa e à penalidade do pecado; a escravidão ao poder e à presença do pecado. Em outras palavras, eles estão a caminho do inferno e são desqualificados para entrar no céu. Esses obstáculos são, no que diz respeito aos homens, totalmente impossíveis de serem superados. Isso foi estabelecido por Cristo de forma inequívoca, quando seus discípulos perguntaram: "Quem pode ser salvo?" Ele respondeu: "Isto é impossível aos homens". Criar um mundo é mais fácil para um pecador perdido do que salvar sua própria alma. Entretanto - louvado para sempre seja o nome do Senhor Jesus - Ele continuou, dizendo: "Para Deus tudo é possível" (Mt 19.25- 26). Sim, problemas que frustram completamente a sabedoria humana podem ser resolvidos pela Onisciência. Tarefas que desafiam os maiores esforços dos homens são facilmente concluídas pela Onipotência. Em nenhuma outra situação esse fato é exemplificado de forma mais impressionante do que na salvação outorgada por Deus aos pecadores.

Conforme afirmamos no parágrafo anterior, duas coisas são ab­solutamente essenciais à salvação: livramento da culpa e da penalidade do pecado; livramento do poder e da presença do pecado. Uma é garantida pela obra medianeira de Cristo; a outra, pelas realizações eficazes do Espírito Santo. Uma é o resultado bendito do que o Senhor Jesus fez pelo povo de Deus; a outra, a gloriosa conseqüência do que o Espírito santo faz no povo de Deus...

Ora, um conhecimento vital e salvífico destas verdades divinas não podem ser adquiridos por meio de estudo a respeito delas. Nenhum esforço na observação das Escrituras, nenhum esmero na análise dos tratados doutrinários mais corretos, nenhum exercício intelectual pode garantir o menor discernimento espiritual dessas verdades divinas. Na verdade, o pesquisador diligente pode ob­ter um conhecimento natural, uma compreensão intelectual da mesma maneira como alguém que nasceu cego obtém uma noção das cores das flores ou da beleza de um pôr-do-sol. Pois, o homem natural não entende mais das coisas espirituais do que um cego entende das coisas naturais. Sim, a sua compreensão espiritual não é maior do que o entendimento de uma pessoa já falecida a respeito do que acontece no mundo que ela deixou. Por semelhante modo, nada menos que o poder divino pode trazer o coração orgulhoso a uma profunda compreensão deste fato humilhante. Somente quando Deus ilumina sobrenaturalmente a alma, esta se conscientiza da horrível escuridão espiritual em que, por natureza, vive.

A verdade do que acabou de ser dito é estabelecida pela afirmação clara e solene de 1 Coríntios 2.14: "Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê­las, porque elas se discernem espiritualmente". Um conhecimento externo da verdade divina, conforme revelada nas Escrituras, pode fascinar a mente e fornecer idéias para especulação e conversas. Contudo, a menos que Deus aplique a verdade à consciência e ao coração, na hora da morte esse conhecimento não será mais proveitoso do que as agradáveis imagens que recordamos de nossos sonhos, no momento em que acordamos. Quão terrível é pensar que multidões de cristãos professos acordarão no inferno, onde descobrirão que seu conhecimento da verdade divina não era mais substancial do que um sonho!

Embora seja verdade que o homem não alcança os caminhos do Senhor por meio de uma busca pessoal (J ó 11. 7) e que os mistérios do reino de Deus são segredos selados, até que Ele se digne em desvendá-los à alma (Mt 13.11), também é verdade que Deus se agrada em transmitir luz celeste ao nosso entendimento obscurecido pelo pecado. É por essa razão que Ele encarrega seus servos de pregarem a Palavra e explicarem as Escrituras, de forma oral e escrita. Todavia, o trabalho deles não produzirá frutos eternos, se Deus não abençoar a semente plantada pelos servos e não lhe der o crescimento. Assim, não importa quão fiel, simples ou útil seja o sermão pregado ou o artigo escrito, a menos que o Espírito aplique ao coração, o ouvinte ou leitor não obtém benefício espiritual. Então, você não rogará humildemente que Deus abra seu coração para receber tudo que está de acordo com sua santa Palavra?

A regeneração não é uma mera mudança exterior, não é uma sim­ples mudança de vida, nem esforçar-se para ter uma vida melhor. O novo nascimento é muito mais que caminhar até ao pastor e apertar-lhe a mão. É uma obra sobrenatural de Deus no espírito do homem, é uma maravilha transcendente. Todas as obras de Deus são maravilhosas. O mundo em que vivemos está cheio de coisas que DOS surpreendem. O nascimento físico é uma maravilha; mas, de vários pontos de vista, o novo nascimento é mais extraordinário. É uma maravilha da graça, da sabedoria, do poder e da beleza divina. É um milagre realizado em nós, sobre o qual podemos estar pessoalmente conscientes. É uma maravilha eterna.

Visto que a regeneração é uma obra de Deus, ela envolve mistério. Todas as obras de Deus são envoltas em mistério insondável. A vida natural, em sua origem, essência e processos, confunde o mais cuida­doso pesquisador. Isto é muito mais verdadeiro no que diz respeito à vida espiritual. A existência e o ser de Deus transcendem a compreensão finita. Então, como esperamos compreender o processo pelo qual nos tornamos seus filhos? O nosso Senhor mesmo declarou que o novo nascimento é um mistério: "O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nasci­do do Espírito" (Jo 3.8).

A regeneração é sobremodo solene. O novo nascimento é a linha divisória entre o céu e o inferno. Aos olhos de Deus há somente dois tipos de pessoas nesta terra: aquelas que estão mortas em pecados e aquelas que andam em novidade de vida. No âmbito físico, não há um estado entre a vida e a morte. Um homem ou está morto ou está vivo. A faísca de vida pode estar muito fraca, mas enquanto ela existe, a vida está presente. Se a faísca se apaga por completo, ainda que você vista o corpo com roupas bonitas, este não passa de um cadáver. Isso também acontece no âmbito espiritual. Ou somos santos ou pecadores, espiritualmente vivos ou espiritualmente mortos, filhos de Deus ou filhos do diabo. Em vista deste fato solene, quão significativa é a pergunta: "Eu nasci de novo?" Se a resposta é não, e se você morrer nesta condição, desejará nunca haver nascido.

A NECESSIDADE DA REGENERAÇÃO JAZ EM NOSSA DEGENERAÇÃO NA­TURAL.

Em conseqüência da queda de nossos primeiros pais, todos nasce­mos afastados da vida e da santida­de de Deus, despojados de todas as perfeições com as quais a natureza do homem foi dotada no princípio. Ezequiel 16.4-6 mostra uma figura de nossa terrível situação espiritual, ao entrarmos neste mundo: lançados em pleno campo, devido ao nojo que causávamos, revolvendo-nos em nosso próprio sangue, incapazes de ajudar a nós mesmos. A "semelhança" com Deus (Gn 1.26), que no princípio estava gravada na alma do homem, foi apagada; uma aversão a Deus e um amor desordenado pela criatura tomou o seu lugar. A própria fonte de nossa natureza é poluída e jorra continuamente águas amargas; e, embora essas águas tomem vários rumos e sigam por vários canais, todas são salobras. Por essa razão o "sacrifício" dos perversos é abominável ao Senhor (Pv 15.8), e até a sua lavoura é "pecado" (Pv 21.4 - RC).

Há somente duas condições, e cada homem está incluído numa delas: a condição de vida espiritual e a de morte espiritual. Uma é a condição de justiça, a outra, de pecado; uma é salvação, a outra, condenação. Uma é inimizade, na qual o homem tem inclinações contrárias a Deus; a outra é amizade e comunhão, pelas quais os homens andam com Deus em obediência, não desejando ter intenções opostas à vontade dEle. Uma condição é chamada trevas, a outra, luz - "Pois, outrora [nos dias que precederam a regeneração, não só estáveis nas trevas, mas], éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor" (Ef 5.8). Não há meio­termo entre essas duas condições: cada pessoa encontra-se em uma delas. Cada homem e cada mulher agora, na terra, ou é objeto do prazer de Deus ou de sua abominação. As mais bondosas e imponentes obras da carne não agradam a Deus. Entretanto, as menores faíscas que procedem daquilo que a graça iluminou são aceitáveis aos seus olhos.

Na Queda, o homem se tornou desqualificado para aquilo que é bom. Nascido em iniqüidade e concebido em pecado (SI 51.5), o ho­mem é um "transgressor desde o ventre materno" (Is 48.8). "Desviam-se os ímpios desde a sua concepção; nascem e j á se desencaminham, pro­ferindo mentiras" (SI 58.3); "é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade" (Gn 8.21). Ele pode ser civilizado, educado, sofisticado e religioso, mas no coração ele é desesperadamente corrupto (Jr 17.9). Tudo que ele faz é desprezível aos olhos de Deus, porque nada que o homem faz procede do amor a Deus e do propósito de glorificá-Lo. "Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons" (Mt 7.18). Enquanto não passam pelo novo nascimento, todos os homens são "reprovados para toda boa obra" (Tt 1.16).

Na Queda, o homem adquiriu uma indisposição para o que é bom. Todas as ações da sua vontade caída, por causa da ausência de um princípio correto do qual elas poderiam fluir e da ausência de um propósito correto para o qual elas se dirigiriam, são nada mais do que maldade e pecaminosidade. Deixe uma pessoa entregue a si mesma, retire dela todas as restrições impostas pela lei e pela ordem, e rapidamente ela descerá a um nível mais baixo do que o dos animais, como quase todos os missionários podem testificar. A natureza humana é me­lhor em terras civilizadas? Nem um pouco. Retire toda a camuflagem, e será descoberto que "como na água rosto corresponde ao rosto, assim, coração do homem, ao homem" (Pv 27 .19). Por todo o mundo, isto é solenemente verdadeiro: "O pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar" (Rm 8.7).

Em um dia por vir, Cristo apresentará a mesma acusação que proferiu quando esteve na terra: "Os homens amaram mais as trevas do que a luz" (Jo 3.19). Eles não O buscam a fim de terem "vida".

Na Queda, o homem adquiriu uma incapacidade para fazer o que é bom. Ele é não somente desqualificado e indisposto, mas também incapaz de fazer o que é bom. Que homem pode dizer verdadeiramente que tem correspondido aos seus próprios ideais? Todos têm de reconhecer que existe uma estranha força interior que os subjuga e os dirige ao mal; este, por sua vez, em intensidades diferentes, vence os homens, apesar dos maiores esforços deles contra o mal. A despeito das amáveis exortações dos amigos, as fiéis advertências dos servos de Deus, os solenes exemplos de sofrimento, tristeza, enfermidade e morte, os quais vemos em toda parte, e a resolução da própria consciência, os homens ainda se rendem ao mal. "Os que estão na carne [em sua condição natural] não podem agradar a Deus" (Rm 8.8).

Assim, é evidente a necessidade de uma mudança radical e revolu­cionária no homem caído, antes que ele possa desfrutar de comunhão com o Deus três vezes santo... O homem deve ser enxertado entre os outros ramos, unido a Cristo, participante do poder de sua ressurreição. Sem isso, ele pode produzir frutos, mas não "para Deus". Como alguém pode voltar-se para Deus sem um fundamento de mudança espiritual? Como alguém de natureza abominável e diabólica pode ser digno do Reino de Deus?

A NECESSIDADE DA REGENERAÇÃO JAZ NA DEPRAVAÇÃO TOTAL DO HOMEM.

Cada membro da raça de adão é uma criatura caída, e cada parte de seu ser complexo foi corrompida pelo pecado. O coração do homem é "enganoso... mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto" (Jr 17.9). O entendimento dele é cegado por Satanás (2 Co 4.4) e obscurecido pelo pecado (Ef 4.18), de modo que os desígnios do homem são continuamente maus (Gn 6.5). Suas afeições são corrompidas, de modo que ele ama o que Deus odeia e odeia o que Deus ama. As intenções do homem são desprovidas de justiça (Rm 6.20) e inimigas de Deus (Rm 8.7). Ele não é justo (Rm 3.10), está debaixo da maldição da lei (Gl 3.10) e é cativo do diabo. De fato, sua condição é deplorável, e seu caso, desesperador. O homem não pode melhorar a si mesmo, porque é "fraco" (Rm 5.6). Ele não pode pro­duzir sua própria salvação, pois nele não habita nenhum bem (Rm 7.18). Logo, o homem precisa nascer de Deus, "pois nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura" (Gl 6.15).

O homem é uma criatura caída. Isto não significa que apenas algumas poucas folhas murcharam, e sim que toda a árvore apodreceu, da raiz até aos ramos. Em cada ser humano existe algo que é radicalmente errado. A palavra radical vem de um vocábulo que, em latim, significa "a raiz"; então, quando dizemos que o homem está radicalmente errado, queremos dizer que há nele, no próprio ceme e fundamento de seu ser, aquilo que é intrinsecamente corrupto e mau. Os pecados são apenas o fruto, necessitam de uma raiz da qual brotem. Como inevitável conseqüên­cia, inferimos que o homem precisa do auxílio de um Poder Maior para realizar uma mudança radical nele. Há somente Um que pode fazer isso. Deus criou o homem, e somente Ele pode recriá-lo. Esta é a razão da exigência: "Importa-vos nascer de novo" (Jo 3.7). O homem está espiritualmente morto e somente um po­der grandioso pode trazê-lo à vida... [Portanto,] quanto mais pudermos compreender a extrema necessidade da regeneração e as várias razões por que ela é absolutamente essencial para que uma criatura caída torne-se apta para estar na presença do Deus três vezes santo, menos dificuldades encontraremos ao nos esforçarmos para chegar ao entendimento da natureza da regeneração...

Jesus Cristo veio a este mundo para glorificar a Deus e a Si mesmo por meio da redenção de um povo que seria dEle mesmo. Mas, que glória imaginamos Deus possui, e que glória atribuiríamos a Cristo, se não houvesse uma diferença fundamental entre o seu povo e o mundo? E que diferença pode haver entre es­tes dois grupos, senão uma mudança de coração? A partir disso, as fontes da vida (Pv 4.23), a transformação da natureza ou da disposição, são como uma nascente de onde procedem todas as outras diferenças ovelhas e bodes têm naturezas diferentes. Toda a obra medianeira de Cristo tem em vista esse propósito. Seu ofício como sacerdote consiste em reconciliar e trazer seu povo para Deus; como profeta, Ele ensina-lhes o caminho; como rei, Ele opera ne­les essas diferenças e concede-lhes aquela beleza que é necessária para adequá-los à comunhão santa com o Deus três vezes santo. Assim Ele purifica "para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras" (Tt 2.14).

"Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis" (1 Co 6.9). Multidões são enganadas, iludidas exatamente neste assunto de extrema importância. Deus tem avisado aos homens que "enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto" (Jr 17.9), mas poucos crêem que isso é verdade a respeito de si mesmos. Pelo contrário, dezenas de milhares de cristãos professos enchem-se de vã e presunçosa confiança de que está tudo bem com eles. Enganam-se com esperanças de misericórdia, enquanto vivem fazendo sua própria vontade e agradando a si mesmos. Imaginam que estão aptos para o céu, enquanto a cada dia estão mais preparados para o inferno. Sobre o Senhor Jesus está escrito: "Ele salvará o seu povo dos pecados deles" (Mt 1.21), e não nos pecados deles. O Senhor Jesus os salvará não só da penalidade, mas também do poder e da corrupção do pecado.

Será que as seguintes palavras não se aplicam a inúmeros cristãos: "Porque a transgressão o lisonjeia a seus olhos e lhe diz que a sua iniqüidade não há de ser descoberta, nem detestada" (SI 36.2)? O principal artifício de Satanás é iludir as pesso­as, fazendo-as acreditar que podem, com sucesso, associar o mundo com Deus, dar lugar à carne, enquanto desejam o Espírito, e assim "apro­veitar ambos os mundos". Mas Jesus enfatizou que "ninguém pode servir a dois senhores" (Mt 6.24).

A NECESSIDADE DA REGENERAÇÃO JAZ NO FATO DE QUE O HOMEM É INAPTO PARA DEUS.

Quando Nicodemos, um fariseu honrado e religioso, sim, um "mes­tre em Israel", procurou Cristo, este lhe disse claramente que, "se alguém não nascer de novo", não pode ver nem entrar no "reino de Deus" (Jo 3.3-5), nem no estado que o evangelho outorga neste mundo, nem no estado de glória, no céu. Ninguém pode entrar no reino espiritual, se não possui a natureza espiritual, que lhe concede o desejo por e a capacidade de deleitar-se nas coisas es­pirituais. O homem natural não possui essa natureza. E, muito mais do que isso, ele não pode nem mesmo discernir as coisas espirituais (1 Co 2.14)! Ele não tem amor por elas e não as deseja (Jo 3.19). Ele não as deseja porque a sua vontade é dominada pelas inclinações de sua carne (Ef 2.2-3). Portanto, antes que um homem possa entrar no reino espiritual, seu entendimento precisa ser iluminado sobrenaturalmente; seu coração, renovado; e sua vontade, libertada.

domingo, 8 de agosto de 2010

Um Templo ou um Teatro?



Charles H. Spurgeon

Trecho do sermão pregado na manhã do dia do Senhor de 7 de outubro de 1888,
no Metropolitan Tabernacle, Newington, Inglaterra.


Os homens parecem nos dizer: "Não há qualquer utilidade em seguirmos o velho método, arrebatando um aqui e outro ali da grande multidão. Queremos um método mais eficaz. Esperar até que as pessoas sejam nascidas de novo e se tornem seguidores de Cristo é um processo demorado. Vamos abolir a separação que existe entre os regenerados e os não-regenerados. Venham à igreja, todos vocês, convertidos ou não-convertidos. Vocês têm bons desejos e boas resoluções: isto é suficiente; não se preocupem com mais nada. É verdade que vocês não crêem no evangelho, mas nós também não cremos nele. Se vocês crêem em alguma coisa, venham. Se vocês não crêem em nada, não se preocupem; a 'dúvida sincera' de vocês é muito melhor do que a fé".

Talvez o leitor diga: "Mas ninguém fala desta maneira".

É provável que eles não usem esta linguagem, porem este é o verdadeiro significado do cristianismo de nossos dias. Esta é a tendência de nossa época. Posso justificar a afirmação abrangente que acabei de fazer, utilizando a atitude de certos pastores que estão traindo astuciosamente nosso sagrado evangelho sob o pretexto de adaptá-lo a esta época progressista.

O novo método consiste em incorporar o mundo à igreja e, deste modo, incluir grandes áreas em seus limites. Por meio de apresentações dramatizadas, os pastores fazem com que as casas de oração se assemelhem a teatros; transformam o culto em shows musicais e os sermões, em arengas políticas ou ensaios filosóficos. Na verdade, eles transformam o templo em teatro e os servos de Deus, em atores cujo objetivo é entreter os homens. Não é verdade que o Dia do Senhor está se tornando, cada vez mais, um dia de recreação e de ociosidade; e a Casa do Senhor, um templo pagão cheio de ídolos ou um clube social onde existe mais entusiasmo por divertimento do que o zelo de Deus?

Ai de mim! Os limites estão destruídos, e as paredes, arrasadas; e para muitas pessoas não existe igreja nenhuma, exceto aquela que é uma parte do mundo; e nenhum Deus, exceto aquela força desconhecida por meio da qual operam as forças da natureza. Não me demorarei mais falando a respeito desta proposta tão deplorável.


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Fontes:
Vi tradução em Palavra Prudente
Vi a integra do sermão em inglês e os créditos e data em Surgeon.org